quinta-feira, 26 de novembro de 2009

"(...) é só uma via de nascimento, oras (...)"

Como alguns já sabem, minha paixão pela gestação, parto e cuidados com os filhos tem sido o fio condutor de minha formação profissional.

No último feriado fiquei imersa num Encontro (19º Encontro Nacional de Gestação e Parto Natural Conscientes), que me deixou cada vez mais maravilhada com o tema.

Saindo do encontro fui visitar a avó da Malu e colocamos a conversa em dia. Papo vai, papo vem, começamos a discutir sobre partos e cesarianas, em um dado momento começamos a debater sobre as mães que se sentem frustradas após uma cesárea.

Em sua visão é um absurdo uma mulher se fixar na forma do parto, que o parto é só uma via de nascimento e ponto. O que importa é a chegada do filho, o resto é lucro ( ou não , ?!).

E é ai onde eu quero chegar. NÃO!!!! Parto não é só uma via de nascimento. Não posso concordar com uma visão simplista e tecnocrata destas. Não estou aqui para entrar no mérito de melhor ou pior, de menos ou mais mãe (até porque isso não existe!!), mas sim para defender o parto como um acontecimento da vida sexual feminina!

Acredito que estamos cada vez mais nos afastando da expressão de nossa feminilidade, do que nos faz mulher, e das experiências maravilhosas que giram em torno do feminino. Tentamos conter nossas emoções para parecermos fortes, como se elas nos enfraquecessem, buscamos compensar a falta de tempo para nossos filhos com presentes...

Para mim, o parto é o orgasmo último da gravidez! O clímax de um acontecimento que nunca mais vai se repetir! E nesse sentido eu consigo entender a frustração que uma cesárea (eletiva ou não) pode gerar.

Imagina se apaixonar, mas não poder beijar?! Ficar , mas não namorar?! Transar, mas não gozar?! Assim também me parece ser o caso de gestar, mas não parir.

Há tempos a expressão da sexualidade feminina vem sendo sufocada, a menstruação muitas vezes é tida como uma vergonha, algo que não se fala, não se comenta e, de preferência, não se sente. O orgasmo feminino ainda é tabu e muitas mulheres ainda acreditam que ter vida sexual é ser objeto de desejo do outro. Nesse sentido o parto também vem sendo deslocado de seu lugar na vida sexual da mulher. Ele vem sendo tratado como um acontecimento familiar, algo do âmbito médico e que tem como função a chegada do filho.

Mas o parto pode ser mais do que isso. O Parto é um evento da vida sexual feminina! Quem já viu uma mulher parir sabe do cheiro de suor, dos gemidos, dos odores, das sensações corporais e do êxtase da expulsão. Não há dúvidas de que é uma viagem íntima, cercada de prazer e de dor, tal qual todas as outras experiências sexuais.

Viver todas as potencialidades da vida sexual inclui parir! Mas ok, nem tudo sai como poderia, ou gostaríamos que fosse.....E aqui fica minha total compreensão e apoio àquelas mulheres que sofrem até hoje suas cesáreas (sejam elas necessárias ou não). Sim, uma cesárea é uma marca profunda na vivência do feminino, mas existe luz no fim do túnel! Somos seres dotados de racionalidade e com muito trabalho podemos transformar nossas chagas em potencialidades.

De lagarta à Borboleta.

Bjs, Gabi

5 comentários:

Anônimo disse...

Eita, que texto mais difícil...falar de parto "normal" já é difícil(não era para ser,né?), imagina apontando o fato de que ele pertence a vida sexual feminina e a feminilidade? É...
Bem, eu gostei muito do texto até porque este é um assunto que me é muito caro ;)

bjus,
Cacau.

Débora disse...

Gabi
Concordo totalmente contigo.
Esse olhar, no entanto, ainda causa muita estranheza na maioria das pessoas, inclusive nas mulheres.
Acho que parte da solução dessa situação é repensar nossos papéis sexuais. Somos agentes ou objetos?
Beijo
Deb

ingrid disse...

Oi Gabi,

Meu parto foi cesária por pura falta de dilatação,a bolsa estourou as 3 da manhã e as 7 da manhã eu estava á zero de contração,a médica achou melhor fazer a cesária.Eu na hora nem pisquei...falei vamos logo que ta passando muito tempo sem água aqui...foi minha fala.
Não fiquei pensando em nada,na verdade só pensei que queria minha filha saudável o mais rápiodo possivel,pensei em não trazer nenhum sofrimento para ela nesse momento que meu corpo não colaborou para o parto.
Depois de ter passado um ano..repensei isso tudo,acho que a cabeça da gente faz isso...o caminho de volta.
Sou uma pessoa que aceita bem o destino e as coisas da vida.Se não deu para ser parto normal, ok.Não acho que isso foi uma trava na minha sexualidade e nem por isso acho que não pari! Ok que não senti a dor do parto,mas será que se não fosse dessa forma eu teria sobrevivido para ver minha filha nascer, crescer etc ?

Cada corpo fala por si só,e pode ser pela "trava" da forma de parir que a vida sexual da mulher possa travar ou não...
Vou levar isso tb para á análise...rsrs

bjos

Érica, disse...

Oi Gabriela, tudo bem com vc?
Sou amiga do seu pai e acompanho seu lindo blog.
Fui mãe ainda menina, com 16 anos e encaro com muita responsabilidade esse papel.
Tive minha primeira filha de parto normal, mas infelizmente, não tive a mesma felicidade nos outros dois partos.
Muito bacana de sua parte falar das mulheres que não optam pela cesária.
Chorei minha cesária inteira.
O mesmo com a amamentatação. Quando meu leite acabou, sofri demasiadamente.
Ser mãe é isso, é chorar o corte do parto, do aleitamento e tantos outros que são necessários ao longo desse caminho da da maternidade.
Caminho este que você tem percorrido lindamente.
Um bjo carinhoso prá ti.
Érica Ferraz

Paty Brandão disse...

Falou e disse, tudo!
Ótimo blog, já estou seguindo, parabéns!