segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Parto ou seria O dia que nascemos?!


Mas mãe, como foi que eu cheguei aqui???

Quem não tem a curiosidade de saber como nasceu??? Eu sempre tive, e muita. Quando pequena tive uma amiga que havia nascido de parto de cócoras, como eu achava aquilo o máximo!! No auge dos meus seis aninhos já havia decidido: Ia parir meus filhos!! E ia ser assim!!

E agora aqui estou eu, contando mais uma vez, cheia de orgulho e amor, como foi o dia que minha princesinha chegou. Espero contar ainda mais vezes para ela, porque valorizar o nosso nascimento é valorizar a vida e como ela pode ser vivida da forma mais natural possível. Pois afinal, parir em casa é retomar o que há de fisiológico do parto, é não só acreditar, mas saber que o nosso organismo (mentecorpo) pode trabalhar integralmente num só objetivo.

E se deixar vivenciar isso tudo, além de saudável, é a MAIOR VIAGEM!!!!!!!!


Durante toda minha gestação li muitos relatos de parto, buscava neles a idéia de que parir, no sentido real da palavra, era natural, emocionante e possível. Chorei tantas e tantas vezes com a emoção do que descreviam e sonhava com a minha hora, o ápice da minha gravidez.

Agora estou aqui, escrevendo meu tão sonhado relato de Parto Domiciliar e já cheia de emoção por ter conquistado mais essa vitória.

A idéia de parir em casa já estava presente em mim muito antes da gestação, mas com ela vinha o medo do desconhecido e eu pensava : “No segundo filho eu me aventuro... deixa eu ver como é parir para depois avaliar se consigo encarar parir em casa...”. Sendo assim acabei buscando acompanhamento com um médico obstetra conhecido da família e resolvi buscar apenas um parto normal humanizado (Aff, odeio essa expressão, parir é humano deixem-nos livres para parir que o parto já será humanizado, enfim...). Quando eu cheguei por volta da 14 semana resolvi encarar o médico e questioná-lo sobre como ele lidava com o parto. Qual não foi minha surpresa quando ele me disse que tava muito cedo para falarmos sobre isso, que só com 34 semanas é que ele falaria sobre parto comigo. Bati o pé e acabei escutando que eu era uma urbanóide e que não conseguiria parir sem anestesia, como estava nos meus planos. Resultado: Saí de lá e nunca mais voltei. Foi a grande chance que eu tive para ir em direção do parto domiciliar, afinal teria que buscar outra pessoa para me assistir durante a gestação e o parto, sem contar também que me senti mais instigada a parir depois de ter sido ridicularizada pelo médico.

Foi então que entrou na minha vida um anjo chamado Heloisa Lessa! Busquei contato com ela, fomos na primeira consulta e foi paixão à primeira vista. Nunca me senti tão segura com alguém em toda minha vida, os momentos de pré-natal foram muito especiais e tenho certeza que contribuíram muito para a gestação seguir sem problema algum até o final. A paixão com que ela leva o seu trabalho nos emocionou e em pouco tempo eu e meu marido já havíamos comprado a idéia do parto em casa repletos de segurança. Agora nós quatro ( Eu, Daniel, Malu e Helô) estávamos no mesmo barco, remávamos juntos na mesma direção e como foi lindo sentir isso...

Claro que a família ficou um pouco cabreira, mas estávamos tão seguros que nada abalava nossa convicção de parir em casa.

Junto com o crescimento da Malu, crescia nossa curiosidade pelo parto, pelos cuidados com o bebê e com este momento tão especial que estava por vir. Através da Helô acabamos por conhecer o Michel Odent , outro anjo que ajudou muito a compreendermos esse momento fisiológico que chamamos de parto e a abraçar mais ainda o parto em casa.

Vibramos de alegria ao chegar à 37 semana, agora podíamos parir em casa e Maluzinha estava a caminho. Nessa semana minhas dores na bacia e no osso púbico começaram a aumentar muito, eu peguei um Rotavírus (daqueles que causam diarréia e vômito) e acabamos tendo um falso trabalho de parto de 12 horas!!! Nossa que semana, me senti frustrada pelo falso trabalho de parto, estava exausta por causa do rotavírus e com muitas dores na bacia. Acabei entrando numa paranóia de que não ia dar conta do trabalho de parto, de que ia me frustrar e acabar numa cesárea, me enchi de medos e acabei vendo que eles estavam todos aqui, mas que eu, por puro orgulho, tentava dar conta deles sozinha, dava uma de forte e engolia os medos até que, numa noite, foram os medos que me engoliram...

Graças a Deus tenho um marido que me ajudou a dar conta de alguns medos, sempre confiando na minha capacidade, me acalmando e dando muito amor para que eu passasse por esta turbulência emocional. Mas tinha também a minha terapeuta, minha família e a Helo. Nesses dias corri para a casa do meu pai e pedi muito colo a todos eles. No sábado, dia 18/10 a Helô veio nos ver em casa e como de custume nosso encontro me acalmou muito, estava entrando nos eixos de novo. Ela me indicou uma massagista para as dores na bacia e no sábado mesmo fui ao encontro dela. A massagem foi maravilhosa, super relaxante e no domingo eu já estava bem melhor.

Na segunda-feira, dia 20/10 acordei algumas vezes de madrugada com cólicas fortes (que já estavam aparecendo há alguns dias), mas nada que me alarmasse. Quando Daniel acordou para se arrumar para o trabalho eu me levantei, nesse dia ele havia dormido um pouco a mais e já eram quase 09:00 quando ele saiu. Resolvi começar a ler um livro que estava comigo a algum tempo, durante a leitura sentia algumas cólicas com contração que me faziam parar de ler, mas eram bem espaçadas e eu voltava para o livro assim que elas iam embora. Nesse dia resolvi não sair do quarto desde que acordei, fiquei lá na cama lendo, curtindo o livro até que senti uma quantidade um pouco maior de secreção saíndo, molhou um pouco a cama e resolvi ligar para o Dani. Avisei o que estava sentindo, mas que não achava que era nada, só para ele ficar avisado. Nisso já deviam ser quase 11:00 da manhã e as cólicas começaram a aumentar bem, fui fazer xixi e saiu o tampão mucoso com sangue. Nesse momento me liguei, caiu a ficha de que podia estar em trabalho de parto. Resolvi tomar um banho quente para ver se as cólicas diminuíam, se não diminuíssem era trabalho de parto mesmo.

Entrei no chuveiro e quase imediatamente minhas contrações aumentaram de itensidade, tomei o banho todo agachada no chão, não conseguia ficar em pé no box, só de cócoras ou de quatro. A dor foi ficando tão forte que eu comecei a gemer em cada contração, nessa hora sabia que tinha que ligar para a Helô, mas não conseguia sair do chuveiro de tanta dor nas contrações. Depois de mais de uma hora no banho tomei coragem e levantei, fui agachando até o quarto e alcancei o celular. Estava só eu e a empregada em casa e ela começou a ficar assustada, toda vez que entrava no quarto eu estava de quatro no chão gemendo. Liguei para Helô, ela me pediu para marcar as contrações por meia hora e depois ela ligaria de volta. Quinze minutos depois eu liguei de volta, as contrações estavam de 3 em 3 minutos e a dor era muita, não dava para esperar meia hora para ligar. Ela falou que estava a caminho, eu não queria ligar para o Daniel, tinha medo dele sair do trabalho e ser alarme falso, mas a coisa começou a apertar e eu resolvi ligar.
Graças a Deus minha empregada estava em casa porquê quando a Helô chegou eu não tinha condições de levantar para atender o interfone, menos ainda de abrir a porta, nesse momento eu só conseguia ficar de quatro na contração e relaxar quando ela ia embora. Que alívio quando a Helô chegou, ela já entrou toda feliz, me abraçando e beijando, falando que Malu estava chegando já já. Logo em seguida o Daniel chegou, já passavam de 13:30 e a coisa estava apertando. O que me aliviava eram as bolsas de água quente , as dores pareciam cólicas menstruais que circulavam meu baixo ventre, as contrações eram tão seguidas que só dava para gemer, tinha dificuldade até em mudar de posição.

Num dado momento a Helô sugeriu que eu subisse na cama, estava no chão desde o início, com algum esforço subi e fiquei de quatro apoiada em travesseiros. Eu já estava em outro mundo, não tinha a menor noção de tempo, não conseguia abrir os olhos, não via mais ninguém, só me entregava ás contrações e me largava nos intervalos para descansar. De repente veio uma contração muito forte e senti um tranco e lá se foi a bolsa, nem me lembrava que ela não havia estourado ainda, foi uma aguaceira sem fim, uma delícia sentir aquele tanto de água quente escorrendo, parecia um mar saíndo de mim, relaxei bem. Logo em seguida a dor apertou, comecei a sentir muita dor na coluna, nas costas mesmo e nesse momento tive medo pela primeira vez. Meu marido veio para perto e segurava minha mão nas contrações e eu comecei a falar que estava com medo, muito medo. A Helô me pedia para não me prender na dor, pensar que Malu estava chegando, mas tava cada vez mais difícil. Mesmo com muita dor em nenhum momento quis desistir (como se fosse possível hehe), sabia que era um processo, que a dor ia passar, mas quando ela vinha eu tinha medo. No auge do medo e da dor a Helô começou a cantar um hino de igreja que falava sobre os mistérios da criação, da importância do momento da encarnação. Foi o momento mais lindo do meu parto, aquele hino ia me acalmando e aos poucos eu ia entrando no expulsivo, e fui entrando numa atmosfera de calma que só os anjos conseguem produzir.

Logo comecei a sentir a vontade de fazer força, sentia ela crescendo dentro de mim até um momento em que era inevitável empurrar. Estava dificil achar uma posição, tentei inicialmente de quatro, mas sentia que faltava apoio, a Helô sugeriu deitar e ela apoiava meus pés nos seus ombros, foi melhor, mas mesmo assim estava difícil. Quando ela sugriu o banco de cócoras eu aceitei de pronto, levantei quase que de um pulo, senti que precisava por os pés no chão, em todos os sentidos da expressão, era hora de parir minha filha, colocá-la para fora, para o mundo. Apartir dali ela não seria mais minha, seria do mundo e eu precisava ajudá-la a sair e isso me deixava assustada, mas me enchia de coragem quando vinha a vontade de fazer força. Quando eu sentia, firmava bem os pés e fazia muita força para ela sair. Continuava de olhos fechados, mas sentia a Helô e o Dani bem perto de mim, me incentivando a trazer nossa princesinha para o mundo. De repente consegui empurrar e a cabecinha dela saiu pela metade, nisso a Helo falou bem baixinho que mais um empurrão e ela nasceria. Quando veio a vontade me enchi de coragem e dei tudo de mim, a pequena saiu quase que de uma vez só, uma delícia sentir o corpinho escorregando e o alivio da pressão. Me joguei no Daniel, logo a Helô me entregou a pequena, que deu um chorinho e parou, ficou no colinho, com toalhas aquecidas e olhando para mim, que coisa mais fofa.

Deitei na cama e curti meus primeiros momentos com minha filha enquanto fazia uma “força comprida” para expulsar a placenta, que saiu rápido. Levei 3 pontinhos , na pele ainda, não alcançou nem a mucosa e, acredite quem quiser, tive muito medo dos três pontinhos!!! Haha
Depois foi só curtição, Malu mamou assim que nasceu e ficou comigo direto, Dani e Helô deram o primeiro banho e logo depois a mocinha mamou mais ainda.

Por incrível que pareça toda essa experiência aconteceu no tempo de 4 horas, uma loucura de vivência essa coisa incrível que é Parir, assim mesmo, com P maiúsculo, porquê assim foi o meu parto, um PARTAÇO como diria a Helô.

Não tenho palavras para agradecer o que eu vivi, sei o quanto muitas pessoas torceram e acreditaram em mim, o que me deu forças para realizar esse grande sonho. Sei também que muitos torceram o nariz e, no fundo, não acreditavam que eu seria capaz, para estes a realidade do que aconteceu já basta.

Sei também que isso tudo só foi possível porque um dia um francês resolveu meter as caras e estudar o parto e não só isso, resolveu mostrar ao mundo seus estudos. Alguns ainda tem dificuldade de compreender a dimensão do parto e o chamam de radical, outros como eu preferem chamá-lo de Michel Odent, um cara corajoso e que, de certa, forma possibilitou a essa mulher aqui viver a experiência mais incrível de sua vida.

Sei que o relato ficou gigante, busquei detalhar minha experiência e me estendi muito, mas o principal para mim é que meu relato ajude a encorajar as outras mulheres a descobrirem a beleza que é Parir, sem mitos, mas com dor, medo, alegria e realização. Todos os sentimentos misturados, pois a vida é assim, não?!

6 comentários:

Raquel Sbrissa disse...

Ahh o que dizer amiga? Você realizou um sonho por nós! Maluzinha veio ao mundo da forma mais linda que se pode acontecer.
Você é uma super mulher!

Laura disse...

Gabi, muito lindo o seu relato, a Malu é realmente especial e terà orgulho quando souber como nasceu. Beijocas!

Mariana disse...

Lindo relato.Emocionante!
beijo,
Mari.

RITINHA disse...

Estou totalmente encantada com seu relato! Sonho com o dia em que poderei parir assim como você... Obrigada por dividir com o mundo essa experiência!

Ana Sixx disse...

Gabi, sei exatamente do que vc está falando...
Das percepções,da dor, da Helô, da vivência toda.

Adorei seu relato, pude saber um pouco mais sobre vc.

bjs

Débora disse...

Oi flor
Ainda não tinha lido o relato do seu parto, muito lindo e super fisiológico né : )!
Fiquei emocionada.
Beijocas